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Doenças infecciosas: alteração climática e doenças animais

Submitted by administrador on 16 de novembro de 2009 – 10:303 comentários

bsummersBrian A. Summers
Department of Pathology and Infectious Diseases, Royal Veterinary College, Hawkshead Lane, Hatfield, Herts AL9 7TA (UK). E-mail: briansummers@rvc.ac.uk.

Já acostumamos com a idéia de que o aquecimento global alterou permanentemente o nosso mundo. As pessoas, que antigamente descreveram essas alterações ambientais como simples manifestações da normalidade, parecem ser hoje uma irrisória minoria. O acúmulo de evidências tem sido notada em todo mundo: derretimento das geleiras, aparecimento de novos lagos, recordes de temperaturas elevadas (no inverno, verão, dia e noite), fortes e freqüentes tormentas, etc. A teoria do aquecimento global coloca a culpa inteiramente no nosso vício ao estilo de vida baseado em combustíveis fósseis. Aqueles que sabem e já sabiam disso avisaram que o tempo para reverter essa dependência, e reduzir os níveis de redução de gases, foi ontem. Atualmente, os líderes mundiais batalham pela dura escolha entre a produção industrial capitalista e aquela que é ambientalmente sustentável. Entretanto, em defesa da procrastinação, muito se tem discutido e pouco se tem feito. Estamos sendo treinados para eliminar a vida na Terra?

Uma conseqüência potencial das alterações permanentes e significantes do clima é a alteração dos padrões de doenças em humanos e animais. Entre eles, podemos incluir: 1) o surgimento de novas doenças e síndromes e 2) a alteração na prevalência de doenças, particularmente aquelas transmitidas por insetos. A ampliação da distribuição geográfica de vetores conhecidos e/ou o recrutamento de outros vetores por novas cepas poderiam acarretar na maior disseminação e infecção de novos hospedeiros potenciais. Doenças caracterizadas por pequenos surtos podem se tornar endêmicas: p.ex. mais caramujos pra disseminar infestações parasitárias ou mais carrapatos para se transmitir a doença de Lyme.

bluetongue

Exemplos reais ocorrem no mundo todo. A febre do Vale Rift, identificado no Quênia em 1931, tem se estendido ao norte, sul e oeste da África e cruzado a costa para a Arábia Saudita, Iêmem, Madagascar e ilhas africanas. Outra doença também transmitida por vetores que tem chamado a atenção internacional é Língua Azul (serotipo-8 europeu), que tem se espalhado ao norte e que é provavelmente de origem sub-saariana. Em 2006, a doença foi confirmada na Holanda e em países vizinhos, chegando à Inglaterra nos anos seguintes (3). Tais doenças são geograficamente restritas pela necessidade de vetores específicos. No entanto, com a temperatura mais elevada e o tempo mais úmido, os Culicoides (vetores do vírus da Língua Azul) se espalharam a novos territórios com outros vetores potenciais e novos hospedeiros que nunca entraram em contato com o vírus (2). Além disso, existe uma preocupação internacional com a Peste Eqüina, que também se dissemina pela picada de mosquitos, e que surgiu na Espanha e Portugal na década de 80. A mortalidade em eqüídeos pode alcançar 95%. Em geral, temperaturas mais elevadas podem resultar em maiores títulos virais nos vetores, maior sobrevivência dos vetores entre estações do ano, maior freqüência de repasto sangüíneo pelos vetores, etc.

Essas notícias “boas” e tópicos relacionados foram discutidos em uma conferência sobre alteração climática e disseminação de doenças emergentes. O simpósio, patrocinado pela Sociedade Real de Medicina, ocorreu em 24 de Junho de 2008, em Londres, e publicado na Veterinary Record em Agosto do mesmo ano (5). Palestrantes convidados mostraram gráficos e dados sobre a triste evidência da elevação da temperatura, especialmente no inverno e nas noites, sendo que os anos mais quentes ocorreram nos últimos 15 anos. Dados médicos e veterinários demonstraram que aproximadamente 75% das doenças emergentes no homem são zoonoses (5). Eu penso: será apenas coincidência que a AIDS, Nipah, Hendra, SARS, e influenza (H5N1 e H1N1) emergiram nos últimos 30 anos?

lion

Um artigo pertinente ao tema de alteração dos padrões das doenças (4) ilustra a complexidade potencial da doenças e as interações ambientais. O vírus da cinomose (morbilivírus) é um patógeno ubíquo que foi identificado como causa de mortalidade em leões africanos do Serengueti em 1994 (6). Canídeos são reconhecidos como hospedeiros normais para a infecção por esse morbilivírus. O surgimento de cinomose letal em grandes felídeos foi extremamente intrigante. Appel et al. publicaram os primeiros estudos epizoóticos de cinomose em leões, tigres e leopardos da América do Norte (1). De interesse, grandes felídeos de circo eram comumente soropositivos para cinomose (indicando exposição ao patógeno), enquanto os que permaneciam no zoológico não eram. Isto demonstrou que, dada a oportunidade, infecção pelo vírus da cinomose era subclínica e relativamente comum em grandes felídeos. Investigações mais profundas dos surtos nos leões do Serengueti mostraram uma relação entre a infecção pelo vírus da cinomose e um segundo patógeno, a Babesia (4). Enquanto surtos epidemiológicos demonstraram cinco ondas de infecção pela vírus da cinomose em duas populações de leões (Serengeti e Ngorongoro) no período de 30 anos (1976-2006), as mortalidades ocorreram em 1994 e 2001. Nesse período, condições ambientais extremas resultaram em um massivo e não-usual hemoparasitismo nos leões. Os dois episódios fatais foram muito similares, nos quais longos períodos de seca foram seguidas de chuvas torrenciais, o que propiciou um aumento exponencial no número de carrapatos. A Babesia, adicionada aos leões já infectados pelo vírus imunossupressivo da cinomose, tornou-se uma mistura mortal.

Retornando ao tema geral, é importante também manter uma ampla perspectiva. Enquanto a alteração climática tem seu papel importante, outros fatores contribuirão para a alteração no padrão das doenças. Nisso devem ser incluídos os cruzamentos seletivos, métodos de confinamento e o aumento da migração de animais. Entretanto, cada vez mais parece que lidaremos com os efeitos do aquecimento global em todos os aspectos de nossas vidas. Mais do que nunca, profissionais da saúde devem entender que grandes desafios virão. E que o inesperado também os aguarda.

Referências

1. Appel MJG, Yates RA, Foley GL, Bernstein JJ, Santinelli S, Spelman LH, Miller LD, Arp LH, Anderson M, Barr M, Pearce-Kelling S, Summers BA. Canine distemper epizootics in lions, tigers, and leopards in North America. J Vet Diagn Invest 6:277–288, 1994.

2. Carpenter S, McArthur C, Selby R, Ward R, Nolan DV, Mordue Luntz AJ, Dallas JF, Tripet F, Mellor PS. Experimental infection studies of UK Culicoides species midges with Bluetongue virus serotypes 8 and 9. Vet Rec 163:589–592, 2008.

3. Gloster J, Burgin L, Witham C, Athanassiadou M, Mellor PS. Bluetongue in the United Kingdom and northern Europe in 2007 and key issues for 2008. Vet Rec 162:298–302, 2008.

4. Munson L, Terio KA, Kock R, Mlengeya T, Roelke ME, Dubovi E, Summers B, Sinclair ARE, Packer C. Climate extremes promote fatal co-infections during canine distemper epidemics in African lions. PLoS One 3: 1–6,2008. Available at http://www.plosone.org. Accessed June, 2008.

5. News and Reports: Effect of climate change on the spread and emergence of disease. Vet Rec 163:132–133, 2008.

6. Roelke-Parker M, Munson L, Packer C, Kock R, Cleaveland S, Carpenter M, O’Brien SJ, Pospischil A, Hofmann-Lehmann R, Lutz H, Mwamengele GLM, Mgasa MN, Machange GA, Summers BA, Appel MJG. A canine distemper virus epidemic in Serengeti lions (Panthera leo). Nature 379:441–445, 1996.

[Fonte traduzido de: Vet Pathol, 46, p.1185-1186, 2009]

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